Economia & Finanças · Análise e reflexão
Domingos e feriados: abrir ou fechar na nova economia do varejo?
Kesler Soares Pereira | Cronos DH
8 min de leitura
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Com dois dias de repouso semanal, um deles preferencialmente aos domingos, abrir a loja deixa de ser hábito e vira decisão de margem incremental, demanda por hora e respeito ao trabalhador.
Por Kesler Soares Pereira | Cronos DH

Plenário do Senado na votação da PEC 221/2019, em 14 de outubro de 2026. Foto: Carlos Moura/Agência Senado — reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado.
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Durante muito tempo, abrir aos domingos foi menos uma decisão econômica do que um reflexo competitivo: "se o concorrente abre, eu abro". Com o texto aprovado pelo Senado prevendo dois dias de repouso semanal, um deles preferencialmente aos domingos, o custo de manter a porta aberta em todos os dias tende a ser revisto. A pergunta volta a ser a mais antiga da gestão: isso dá resultado?
O fato: em 14 de outubro de 2026, o Senado aprovou em dois turnos, por 75 votos a 1 em ambos, a PEC 221/2019, que acaba com a escala 6x1. O texto prevê dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, jornada máxima de 40 horas semanais e nenhuma redução salarial. A transição prevista é de 42 horas 60 dias após a promulgação e de 40 horas 12 meses depois. A proposta segue para promulgação e ainda não está em vigor.
A conta certa: margem de contribuição incremental
Voltar ao sumário ↑O erro mais frequente é comparar o faturamento do domingo com o de um dia útil. A pergunta correta é outra: quanto de margem esse dia acrescenta que não seria capturado em outro dia? Parte da venda de domingo é deslocada — o cliente compraria no sábado ou na segunda. Outra parte é realmente incremental — o cliente que só pode comprar naquele dia ou que iria ao concorrente.
A margem de contribuição incremental do domingo é, portanto: venda incremental multiplicada pela margem média, menos os custos que só existem porque a loja abriu. E esses custos são muitos:
- Equipe: horas adicionais, adicionais previstos em lei ou convenção, folgas compensatórias e, com a nova regra, maior dificuldade de escala.
- Encargos: incidem sobre cada hora paga.
- Energia e climatização: em lojas grandes, uma das maiores despesas variáveis.
- Aluguel e condomínio: em shopping, muitas vezes o horário é obrigatório; em rua, o custo fixo existe de qualquer forma e não deve ser atribuído ao domingo como se fosse variável.
- Segurança, limpeza e logística.
Se o resultado for positivo de forma consistente, abrir faz sentido. Se for negativo ou marginal, a loja pode estar pagando para manter um hábito.
Demanda por hora: o domingo não é homogêneo
Voltar ao sumário ↑Muitos varejistas descobrem, ao olhar os dados por faixa horária, que o domingo tem duas ou três horas fortes e várias horas mortas. Daí surgem alternativas intermediárias: horário reduzido (abrir das 9h às 14h, por exemplo), abertura sazonal (datas comemorativas e fim de ano), operação enxuta com mix limitado, retirada de pedidos online e atendimento por agendamento em categorias consultivas.
Concorrência e posicionamento
Voltar ao sumário ↑Fechar quando todos abrem pode significar perder cliente. Mas abrir quando o cliente não aparece significa perder dinheiro. Em mercados locais, vale observar se a concorrência realmente captura o fluxo de domingo ou apenas mantém a porta aberta. Também há posicionamento: algumas marcas transformam o fechamento em mensagem de respeito à equipe, e isso pode ter valor de reputação.
Legislação, acordos e proteção ao trabalhador
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O funcionamento do comércio aos domingos e feriados no Brasil já depende de legislação específica, normas municipais e convenções coletivas. A PEC não elimina essas camadas; acrescenta um novo parâmetro constitucional de repouso. Antes de qualquer decisão, o varejista precisa consultar assessoria jurídica e o sindicato da categoria. Acordos e convenções podem prever compensações, revezamentos e condições específicas — e a proteção ao trabalhador não é obstáculo, é parte da equação.
O princípio do prazer na decisão de abrir
Voltar ao sumário ↑Há um componente emocional pouco discutido. Para o empresário, abrir aos domingos pode funcionar como alívio de ansiedade: a sensação de que "não estou perdendo nada". É uma resposta guiada pelo princípio do prazer — evitar o desconforto da dúvida com a ação mais conhecida. Do lado do consumidor, o shopping de domingo é muitas vezes passeio, não compra: busca de prazer e convivência, com conversão menor do que a percebida. Distinguir passeio de compra é distinguir movimento de resultado.
Decidir bem exige suportar a incerteza por tempo suficiente para medir. Um teste de seis a oito semanas, com horário reduzido em uma loja e horário pleno em outra comparável, costuma dizer mais do que anos de intuição.
Uma decisão por loja, não por rede
Voltar ao sumário ↑Não há resposta única. Lojas de bairro, de shopping, de centro e de rodovia têm curvas de demanda distintas. A nova economia do varejo pede decisões granulares, revisadas periodicamente e explicadas à equipe. Para ler mais sobre comportamento do consumidor, visite o acervo editorial da Cronos DH.
Fontes
Voltar ao sumário ↑- Agência Senado — Senado aprova fim da escala 6x1 (14/10/2026)
- Senado Federal — tramitação da PEC 221/2019
Kesler Soares Pereira é psicanalista, consultor empresarial e especialista em gestão comercial. Escreve para a Cronos DH sobre comportamento, trabalho e consumo.
Artigo original publicado na Cronos DH · Ler o artigo original · Autoria: Kesler Soares Pereira.
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