Comportamento
A mente de quem atravessa o câncer de mama
Por Kesler Soares Pereira | Psicanalista, escritor e fundador da Cronos DH
5 min de leitura
Outubro Rosa também precisa falar sobre aquilo que a mamografia não mostra.
Este tema também aparece em leituras sobre emoções e escuta no acervo da Cronos DH.
A medicina nunca avançou tanto no enfrentamento do câncer de mama. Diagnósticos mais precoces, tratamentos cada vez mais individualizados, novas terapias, cirurgias mais precisas e acompanhamento multidisciplinar mudaram a história de milhares de mulheres.
Mas existe uma parte dessa história que nenhum exame de imagem consegue fotografar: o que acontece dentro da mente de uma mulher quando ela ouve a palavra “câncer”.
O diagnóstico chega ao corpo, mas também invade o futuro. Em poucos segundos surgem perguntas: Vou sobreviver? Como ficará meu corpo? Vou perder meu cabelo? E minha família? Meu relacionamento? Meu trabalho? Minha sexualidade? Quem eu serei depois disso?
É nesse território invisível que começa outra parte do tratamento.
O câncer não é “criado pela mente”
Voltar ao sumário ↑É importante deixar isso absolutamente claro. Não existe base científica para responsabilizar uma mulher por desenvolver câncer de mama porque “pensou errado”, sofreu demais ou não teve uma “mente positiva”. Esse tipo de discurso, além de simplificar uma doença extremamente complexa, pode acrescentar culpa justamente a quem precisa de acolhimento.
Entretanto, reconhecer isso não significa separar mente e corpo como dois mundos que não conversam. Nós reagimos biologicamente àquilo que vivemos psicologicamente. Uma ameaça real pode produzir medo. Uma ameaça imaginada também. Uma lembrança pode acelerar o coração. Uma expectativa pode impedir o sono. Uma imagem mental pode provocar ansiedade antes mesmo que aquilo que tememos aconteça.
O sofrimento psíquico possui manifestações corporais reais. E receber um diagnóstico potencialmente ameaçador à vida pode mobilizar ansiedade, angústia, alterações do sono, medo, tristeza, mudanças na percepção do próprio corpo e profundas questões existenciais. Por isso, cuidar da mente durante o tratamento não é luxo. É cuidado.
Existe um tratamento acontecendo fora do hospital
Voltar ao sumário ↑Enquanto médicos, enfermeiros e demais profissionais trabalham diretamente sobre a doença, psicólogos, psicanalistas e profissionais de saúde mental podem ajudar a paciente a atravessar aquilo que o diagnóstico produz subjetivamente.
Uma mulher não se transforma em um prontuário quando recebe um diagnóstico. Ela continua sendo mãe, filha, companheira, profissional, amiga. Continua tendo desejos, medos, planos, história e identidade. E o câncer pode atravessar todas essas dimensões.
O acompanhamento psicológico ou psicanalítico não substitui oncologista, mastologista, medicamentos, cirurgia, radioterapia ou qualquer tratamento médico. Ele ocupa outro lugar: o lugar da palavra, da elaboração do medo, da reconstrução da imagem corporal, do enfrentamento das perdas, da sexualidade, dos relacionamentos, da ansiedade diante dos exames, do medo da recidiva e, muitas vezes, da pergunta mais difícil: “Quem sou eu depois de tudo isso?”
A força não está em fingir que não existe medo
Voltar ao sumário ↑Criamos uma imagem perigosa da pessoa “forte”: aquela que não chora, não reclama e permanece otimista o tempo inteiro. Mas força emocional não é anestesia. Uma mulher pode ter medo e continuar lutando. Pode chorar e continuar seguindo o tratamento. Pode precisar de ajuda e continuar sendo forte.
Talvez uma das formas mais maduras de força seja reconhecer: “Hoje eu não estou conseguindo atravessar isso sozinha.”
Depois do câncer, existe outra travessia
Voltar ao sumário ↑Há ainda um capítulo pouco discutido: o momento em que o tratamento termina. Para quem observa de fora, parece o ponto final. Para quem viveu a doença, pode ser o início de uma nova adaptação. O corpo pode ter mudado. A percepção sobre a vida pode ter mudado. Os relacionamentos podem ter mudado. E aquela pessoa que passou meses concentrada em sobreviver precisa reaprender a viver sem organizar todos os seus pensamentos ao redor da doença.
Vencer não significa necessariamente voltar a ser exatamente quem se era antes. Às vezes significa construir uma nova relação consigo mesma.
Outubro Rosa precisa ir além do rosa
Voltar ao sumário ↑A campanha é fundamental para lembrar da prevenção, do rastreamento adequado, da atenção aos sinais e da importância do diagnóstico precoce. Mas também pode nos lembrar de outra responsabilidade: não abandonar emocionalmente quem está enfrentando a doença.
Perguntar. Escutar. Acompanhar. Respeitar o silêncio. Não exigir positividade. Não transformar sofrimento em fraqueza. E incentivar ajuda profissional quando ela for necessária.
A medicina continuará avançando. Novos tratamentos continuarão surgindo. Mas cuidar de uma pessoa sempre exigirá enxergar algo além da doença. Porque existem exames capazes de investigar o corpo. E existem dores que só aparecem quando alguém encontra espaço para falar.
Aviso editorial: Este artigo possui caráter informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico, psicológico ou de outros profissionais de saúde.