Comportamento
Por que algumas mulheres flertam escondidas pelo celular? É prazer ou necessidade de atenção?
Kesler Soares Pereira | Cronos DH
5 min de leitura
Validação, fantasia, atenção ou autonomia? O que pode estar por trás do flerte escondido pelo celular — e o que ele mexe na confiança.
Ela pode estar casada, ter uma família, compartilhar a cama todas as noites e, ainda assim, esperar ansiosamente pela mensagem de alguém que não é seu parceiro.
A notificação acende a tela e algo acende junto: uma sensação de ser vista, desejada, interessante. Ela apaga a conversa antes de dormir. Pela manhã, sente culpa — e, à tarde, espera de novo.
Resposta curta: o flerte escondido pelo celular pode estar ligado a prazer, mas também a validação, fantasia, busca de autonomia ou falta de atenção na relação. Não é exclusivo de mulheres, e não significa necessariamente intenção de encontro. Ainda assim, quando acontece às escondidas, mexe com limites e confiança. Este texto é educativo e não substitui avaliação profissional.
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Não é um comportamento "feminino"
Voltar ao sumário ↑Homens e mulheres flertam pelo celular, e estudos sobre infidelidade online encontram o comportamento em ambos os gêneros. Este texto fala de mulheres porque a pergunta costuma chegar assim, e porque há aspectos específicos: muitas mulheres relatam que, na vida doméstica, deixam de ser vistas como alguém desejável e passam a ser vistas só pelo que fazem pelos outros.
Prazer ou necessidade de atenção?
Voltar ao sumário ↑Muitas vezes, as duas coisas — e outras.
- Validação. Uma mensagem de elogio responde a uma pergunta silenciosa: "eu ainda sou interessante?". Quando a autoestima está frágil, esse retorno pode virar quase uma necessidade.
- Erotismo e fantasia. O celular cria um espaço protegido onde é possível imaginar sem as consequências do real. A outra pessoa existe, em boa parte, na imaginação.
- Atenção. Alguém que pergunta "como foi seu dia?" e realmente espera a resposta pode preencher uma falta que a rotina abriu.
- Autonomia. Para algumas mulheres, aquele espaço é o único que não pertence à família, ao trabalho ou às obrigações — um lugar onde ela é só ela.
- Excitação do segredo. O escondido tem sua própria intensidade. Às vezes, o que atrai é menos a pessoa e mais o risco.
Uma leitura psicanalítica, com cuidado
Voltar ao sumário ↑Freud falou do princípio do prazer — a tendência de buscar satisfação e evitar desprazer — e do princípio de realidade, que leva em conta limites e consequências. O flerte digital vive numa zona intermediária: oferece satisfação imediata com a sensação de que nada "real" está acontecendo. A tela funciona como uma cena onde a pessoa pode experimentar uma versão de si que não cabe no cotidiano — algo próximo do que se discute sobre o alter ego, sem que sejam a mesma coisa.
Essas são leituras para reflexão, não conclusões comprovadas. A pesquisa empírica, por sua vez, mostra que insatisfação na relação, menor intimidade e oportunidade facilitada pela tecnologia se associam a mais comportamentos de infidelidade online — associação não é causa, e cada história é singular.
Flertar não é o mesmo que querer um encontro
Voltar ao sumário ↑Muitas pessoas nunca pretendem sair da tela. O flerte serve como fantasia, regulação do humor ou fuga momentânea. Isso não torna o comportamento neutro: para muitos casais, uma troca íntima escondida já é sentida como traição, mesmo sem contato físico. O que conta é o acordo do casal e o fato de estar escondido.
Exemplos do cotidiano
Voltar ao sumário ↑Luciana, 42 anos, começou a conversar com um antigo colega de faculdade. "Ele lembra de quem eu era antes de ser mãe", diz. Ela não quer encontrá-lo; quer, talvez, encontrar a si mesma.
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Bianca percebe que pega o celular sempre que discute com o marido. A conversa externa virou um jeito de não sentir a briga.
Limites e confiança
Voltar ao sumário ↑Algumas perguntas ajudam a entender onde você está:
- Eu mostraria essa conversa ao meu parceiro?
- O que sinto quando a mensagem não chega?
- Essa troca me aproxima ou me afasta da minha relação?
- O que estou deixando de dizer em casa?
Se essas perguntas trazem culpa ou pensamentos repetitivos, leia também por que não paro de pensar.
O que pode ajudar
Voltar ao sumário ↑- Nomear o que a conversa oferece: elogio, escuta, excitação, fuga?
- Perguntar se essa necessidade pode ser falada na relação.
- Reconhecer o custo do segredo para você e para o outro.
- Procurar escuta profissional individual ou de casal se o padrão se repete ou gera sofrimento.
Para pensar a dinâmica do casal, veja também por que alguns casais deixam de transar em casa e ressentimento no relacionamento.
Perguntas frequentes
Voltar ao sumário ↑Flertar pelo celular é traição? Depende dos acordos do casal. Para muitos, a troca íntima escondida já rompe a confiança.
Isso quer dizer que ela não ama o parceiro? Não necessariamente. Pode coexistir com afeto e indicar necessidades não atendidas.
Homens também fazem isso? Sim. O comportamento aparece em todos os gêneros.
Referências
Voltar ao sumário ↑- FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico (1911). In: Obras completas.
- HERTLEIN, K. M.; PIERCY, F. P. Internet infidelity: a critical review of the literature. The Family Journal, 14(4), 2006.
- PEREL, E. Casos e casos: repensando a infidelidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.
- MCDANIEL, B. T. et al. Is Facebook flirting harmful? Journal of Social and Personal Relationships, 2017.