Liderança & Pessoas
Por que contratar vendedores quando a gestão não sabe por que perde vendas?
Kesler Soares Pereira | Cronos DH
5 min de leitura
Publicado em · Atualizado em
Mais vendedores não corrigem necessariamente um processo comercial opaco. Uma análise sobre metas, evidências de perda e capacidade de gestão.
Este tema também aparece em leituras sobre gestão comercial no acervo da Cronos DH.
A meta não foi alcançada. A reunião termina com uma decisão rápida: aumentar a equipe. Ninguém consegue responder quantas oportunidades foram perdidas por inadequação da oferta, prazo, preço ou ausência de decisão. Mesmo assim, a empresa já prepara as novas vagas.
É uma cena hipotética, não a descrição de uma contratação investigada. Ela coloca em dúvida uma resposta que pode ser legítima, mas não deveria preceder o diagnóstico. Contratar amplia capacidade comercial. Não garante que a capacidade existente estava sendo bem utilizada.
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A tese desta reportagem é que uma operação sem entendimento das perdas corre o risco de multiplicar um processo pouco eficaz. A pergunta não é se vendedores são necessários, mas qual problema a contratação pretende resolver. Falta de cobertura, excesso de trabalho e deficiência de processo exigem decisões diferentes.
Um benchmark não é uma sentença sobre a equipe
Voltar ao sumário ↑Na atualização H1 de seu B2B Sales Benchmarks 2024, a Ebsta informa que 75% dos representantes da base não atingiram a quota no segundo trimestre de 2024. O relatório analisa 4,7 milhões de oportunidades de 566 empresas, US$ 57,3 bilhões em receitas analisadas e mais de 1,2 milhão de horas de conversas. A fonte primária também registra ciclos de venda 20% maiores em comparação com 2023.
A base é comercial e observacional, não um levantamento representativo dos vendedores brasileiros. O percentual não prova que a maioria dos profissionais seja incompetente, nem identifica quanto do resultado decorre de metas, mercado, produto ou gestão. Usá-lo para culpar uma equipe seria uma leitura que o desenho não sustenta.
O dado chama atenção para outra possibilidade: metas e capacidade precisam ser investigadas juntas. Se o tempo de decisão muda, a produtividade prevista por período pode mudar. O mesmo número de profissionais pode realizar mais trabalho e fechar menos no mês sem que esforço e competência tenham caído na mesma proporção.
Indicador que informa ou indicador que ameaça
Voltar ao sumário ↑Um KPI é uma medida escolhida para acompanhar um objetivo. Quantidade de ligações mostra atividade; conversão mostra relação entre um conjunto de oportunidades e um resultado; margem mostra uma dimensão econômica. Nenhum desses indicadores substitui os demais.
Quando a meta premia atividade isolada, a equipe pode aumentar contatos sem ampliar entendimento. Quando premia fechamento sem condição econômica, pode oferecer descontos excessivos. Não se atribui aqui uma taxa a esses comportamentos. São efeitos possíveis de incentivos que precisam ser observados na própria operação.
Minha interpretação é que um bom indicador permite discutir uma decisão. Se a reunião só pergunta por que o número ficou vermelho, o dado tende a virar julgamento. A equipe aprende a explicar o resultado depois, em vez de produzir informações que ajudem a agir antes.
O motivo da perda precisa sobreviver à reunião
Voltar ao sumário ↑Preço pode significar falta de orçamento, comparação desfavorável ou valor pouco compreendido. Sem decisão pode significar baixa prioridade ou um processo interno não mapeado. Um campo genérico de CRM registra o encerramento, mas pode não conservar a causa investigável.
A apuração exige distinguir fala do comprador e interpretação de quem vende. Também pede que a gestão examine padrões ao longo de um período, evitando transformar um episódio em regra. A matéria sobre a objeção de preço apresenta essa diferença entre explicação rápida e hipótese que precisa ser verificada.
Ouvir negociações exige finalidade clara e respeito às condições de registro. Conhecer a perda não autoriza invasão da privacidade do cliente ou uso de uma conversa como humilhação pública do profissional. Aprendizado comercial e exposição pessoal não são equivalentes.
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Cobertura e gargalo não são a mesma falta
Voltar ao sumário ↑No varejo, em um exemplo hipotético, uma equipe pode atender compradores suficientes, mas depender de uma resposta lenta sobre estoque. Contratar outro vendedor não altera automaticamente a disponibilidade. A relação com ruptura e venda perdida torna visível a participação da operação no resultado.
No agro, uma revenda pode perder negociações porque a capacidade de assistência ou a análise de financiamento demora. Pode também ter regiões sem cobertura, nas quais uma contratação faça sentido. Esses exemplos não relatam empresas reais; mostram por que a mesma queda de receita admite diagnósticos opostos.
A decisão sobre pessoas precisa considerar demanda efetiva, carga de trabalho, ciclo e capacidade de entrega. Há operações em que o time é insuficiente e está sobrecarregado. Evitar contratação por uma crença genérica em eficiência seria tão pouco fundamentado quanto contratar por reflexo.
A gestão também entra no funil
Voltar ao sumário ↑Aprovação de condições, clareza da proposta e acesso à informação podem depender de decisões da liderança. Se esses pontos ficam fora da análise, toda perda aparece como falha do último profissional que falou com o comprador. O processo inteiro permanece protegido do diagnóstico.
Uma análise responsável acompanha oportunidades comparáveis e verifica em que etapa surge a dificuldade. A comparação não deve misturar clientes, canais e ofertas muito diferentes como se o vendedor fosse a única variável. Métricas precisam de denominadores coerentes e de explicação sobre o período observado.
Nenhum estudo citado garante que revisar KPIs aumentará vendas. A proposição autoral é mais específica: antes de acrescentar capacidade, a empresa deve demonstrar qual restrição está tentando reduzir. A contratação pode então ser acompanhada por uma hipótese verificável, em vez de representar uma esperança vaga.
Se os novos vendedores começassem amanhã, qual obstáculo deixaria de existir — e qual continuaria esperando uma decisão da gestão?
Fontes e metodologia
Voltar ao sumário ↑Ebsta — 2024 B2B Sales Benchmarks: H1 Update. Atualização do primeiro semestre de 2024: 4,7 milhões de oportunidades de 566 empresas, US$ 57,3 bilhões em receitas analisadas e mais de 1,2 milhão de horas de conversas. Base comercial observacional, não amostra probabilística de empresas brasileiras; associações não comprovam causalidade.
Fotografia de abertura: imagem ilustrativa de banco fotográfico Unsplash; não retrata uma empresa ou caso investigado nesta matéria.
E o que isso revela sobre você?
Antes de aumentar a cobrança sobre a equipe, você consegue perceber como a pressão por resultados atravessa sua maneira de liderar e de tratar a si mesmo?
A Cronos DH é uma empresa voltada à educação empresarial, especializada em comportamento organizacional e do consumidor. Nosso trabalho aproxima a compreensão dos negócios do cuidado com quem trabalha: ajuda profissionais a reconhecer padrões, compreender o sofrimento ligado ao estresse do trabalho e à ansiedade e construir caminhos de desenvolvimento mais conscientes.